
Fotos: @jack_imagens/Ferju Imbituba Pro
O retorno das competições de surfe profissional à Praia da Vila, em Imbituba, representa um marco fundamental para a consolidação do sul de Santa Catarina como o epicentro da modalidade no Brasil. O Ferju Imbituba Pro 2026, realizado nos dias 14 e 15 de março, não foi apenas uma disputa por premiações e pontos em um ranking regional; foi um evento catalisador de transformações socioeconômicas, ambientais e esportivas. Sob a ótica do jornalismo construtivo, a análise deste evento revela como o esporte pode servir de ponte para o desenvolvimento humano, o fortalecimento de identidades locais e a promoção da sustentabilidade em comunidades costeiras. A vitória de Alexia Monteiro e Lucas Haag, em um cenário de ondas potentes e estrutura organizacional de excelência, simboliza a maturidade de uma região que respira o oceano e compreende seu valor estratégico para o futuro.
O Retorno da Categoria Profissional e a Identidade de Imbituba
Desde 2022, quando Walley Guimarães conquistou o último circuito da Associação de Surf Imbitubense (ASI), a categoria profissional havia deixado de integrar o calendário oficial da entidade. O hiato, agravado pelos efeitos residuais da pandemia e por mudanças na gestão esportiva local, criou um vácuo que afetou a trajetória de talentos emergentes. No entanto, o Ferju Imbituba Pro 2026 rompeu esse ciclo, trazendo de volta o prestígio da categoria Profissional/Amador (Pro/Am) em um formato independente do circuito amador, permitindo uma valorização dedicada aos atletas que buscam no surfe sua subsistência e carreira.
Este resgate é essencial para a manutenção da cultura de praia. Conforme apontado pela diretoria de marketing da ASI, o evento foi planejado para mostrar aos surfistas locais que é possível viver do esporte, incentivando novos talentos e reforçando o orgulho comunitário. A Praia da Vila, com sua topografia peculiar e ondas que remetem aos picos mais icônicos do mundo, como Haleiwa no Havaí, serviu de palco ideal para esta demonstração de força.
| Aspecto Histórico | Descrição do Impacto |
| Último Campeão Pro (2022) | Walley Guimarães (ASI). |
| Hiato Profissional | Categoria ausente entre 2023 e 2025. |
| Objetivo do Retorno | Valorização da categoria e incentivo a novos talentos. |
| Estratégia de Calendário | Separação dos circuitos amador e profissional para foco técnico. |
O evento marca o início de um mês onde Imbituba se transforma na “Capital Catarinense do Surfe”, com uma sequência de três semanas de eventos que incluem o Circuito Amador Giassi Surf Tour e a etapa do World Surf League (WSL) Qualifying Series (QS) 6000. Esta densidade competitiva cria um ambiente de imersão total, onde a economia local e o esporte se fundem em um ciclo virtuoso de crescimento.
O Protagonismo Feminino e a Força de Garopaba
Um dos pilares mais inspiradores do Ferju Imbituba Pro 2026 foi a performance das atletas de Garopaba. A conquista de Alexia Monteiro no feminino e o vice-campeonato de Maya Carpinelli demonstram que a região vizinha a Imbituba tornou-se um celeiro de atletas de elite, capazes de dominar ondas pesadas e estratégias de bateria complexas. O jornalismo construtivo destaca aqui não apenas o resultado numérico, mas a trajetória de resiliência e dedicação dessas mulheres que elevam o patamar do surfe catarinense.
Alexia Monteiro: A Ascensão de uma Promessa Mundial

Fotos: @jack_imagens/Ferju Imbituba Pro
Aos 19 anos, Alexia Monteiro já não é mais apenas uma promessa, mas uma realidade consolidada no cenário internacional. Sua vitória na Praia da Vila foi pautada por um surfe “forte e seguro”, demonstrando que os treinos intensos nas ondas potentes da Praia do Silveira geraram a base necessária para enfrentar o volume de água da Vila. Alexia começou a surfar tarde, em dezembro de 2017, mas sua evolução meteórica — impulsionada pelo suporte de treinadores especializados e um foco rigoroso na preparação física — permitiu que ela alcançasse resultados expressivos em pouco tempo.
| Conquista / Perfil | Detalhes Técnicos |
| Pontuação na Final Ferju Pro | 8,93 pontos (vencedora). |
| Desempenho Internacional | 4ª colocada no WSL Pro Junior no Peru. |
| Base de Treinamento | Praia do Silveira, Garopaba. |
| Experiência em Grandes Ondas | Participação no Challenger Series e temporadas no Havaí. |
A vitória de Alexia é um exemplo de superação, considerando que a atleta já enfrentou desafios de saúde significativos, como uma embolia pulmonar, que exigiram uma pausa forçada e um processo de reabilitação intenso para o retorno ao alto rendimento. Sua fala após a conquista na Vila reflete a gratidão pelo esforço organizacional da ASI e a comparação técnica com o surfe havaiano, o que sublinha a importância de Imbituba como arena de treinamento para o circuito mundial.
Maya Carpinelli: Estilo e Técnica na Nova Geração
Maya Carpinelli, aos 15 anos, garantiu o segundo lugar no pódio, reforçando a hegemonia de Garopaba no evento. Maya é o exemplo vivo de como o surfe pode ser uma extensão da expressão artística. Filha de artista plástico, ela transfere a fluidez das linhas de desenho para as ondas, combinando estilo clássico com manobras modernas. Seu título histórico nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) em 2024, onde o surfe estreou como modalidade, já havia colocado seu nome nos anais do esporte estadual.
A performance de Maya no Ferju Pro mostra que a renovação do surfe feminino está em boas mãos. O fato de Garopaba ter ocupado as duas primeiras posições em um evento realizado em Imbituba demonstra uma colaboração implícita entre as cidades: enquanto Imbituba oferece as condições de mar e a estrutura de grandes eventos, Garopaba contribui com a formação técnica de excelência em suas praias de treino.
Análise Técnica e Oceanográfica da Praia da Vila
A Praia da Vila é reconhecida tecnicamente pela sua capacidade de segurar grandes ondulações sem perder a formação das paredes. Durante o Ferju Imbituba Pro 2026, as condições foram descritas como clássicas, com ondas de 1 metro e séries de até 1,5 metros. O vento norte/nordeste atuou como um elemento favorável para a execução de manobras aéreas, que acabaram sendo o diferencial para a vitória de Lucas Haag no masculino.
A Física do Surfe de Alta Performance
A energia de uma onda, que pode ser modelada pela expressão E=81ρgH2 (onde ρ é a densidade da água, g a aceleração da gravidade e H a altura da onda), foi convertida em velocidade e projeção pelos atletas. Lucas Haag demonstrou um domínio superior desta dinâmica, alcançando o maior somatório do evento na semifinal: 18 pontos em 20 possíveis. Sua nota 10 unânime foi o ponto alto técnico da competição, resultado de um aéreo frontside com rotação completa e aterrissagem perfeita na base da onda.
| Atleta | Nota Máxima | Somatório Máximo | Manobra Destaque |
| Lucas Haag | 10,00 | 18,00 | Aéreo Frontside. |
| Walley Guimarães | 8,50 | 15,20 | Batida Vertical. |
| Alexia Monteiro | 5,50 | 8,93 | Rasgada de borda. |
| Maya Carpinelli | 4,80 | 7,60 | Estilo e Flow. |
A resiliência de Lucas Haag na final também merece destaque. Precisando de uma nota 6,60 para virar sobre Walley Guimarães, Haag manteve a calma e, nos minutos finais, encontrou uma rampa que lhe permitiu voar alto e conquistar um 9,50, selando sua vitória. Este tipo de cenário é fundamental para preparar os atletas brasileiros para a pressão encontrada nos eventos do QS e do Challenger Series da WSL.
Impacto Socioeconômico e Governança Municipal
A realização de eventos esportivos de grande porte em Imbituba não é um ato isolado, mas parte de uma estratégia de gestão pública focada no turismo sustentável e no desenvolvimento econômico. O prefeito Michell Nunes tem articulado parcerias internacionais e investimentos em infraestrutura para garantir que a cidade recupere o protagonismo no surfe mundial.
O Ciclo de Eventos e a Economia Local
A maratona de surfe em março atrai não apenas competidores, mas equipes técnicas, familiares, turistas e mídia especializada. Isso gera um impacto direto na rede hoteleira e no setor gastronômico de Imbituba e Garopaba. Estima-se que eventos desse porte movimentem milhões de reais na economia regional, criando empregos temporários e fixos na área de serviços.
A missão estratégica realizada pela comitiva de Imbituba em Portugal, onde acompanharam a etapa mundial de Peniche, serviu para que a administração municipal realizasse um benchmarking das melhores práticas organizacionais. A observação de estruturas de grande porte, gestão de público e logística de transmissão foi aplicada no Ferju Pro, elevando o nível da entrega do evento para atletas e patrocinadores.
| Setor Beneficiado | Tipo de Impacto | Evidência |
| Hotelaria | Ocupação máxima em fins de semana de evento | Atração de atletas estrangeiros (URU, CHI, SWE). |
| Comércio Local | Vendas de equipamentos e vestuário técnico | Patrocínio máster da Malhas Ferju. |
| Gastronomia | Aumento do fluxo em restaurantes da Praia da Vila | Público lotado em “clima de verão”. |
| Infraestrutura | Melhorias na drenagem e vias de acesso | Obras na Av. Luiz Gonzaga de Amorim e novas caixas coletoras. |
A prefeitura também tem investido em infraestrutura urbana para suportar o crescimento do turismo. Obras de drenagem para eliminar alagamentos históricos e a pavimentação de ruas de acesso à Praia da Vila e arredores são fundamentais para que o visitante tenha uma experiência positiva, incentivando o retorno em temporadas futuras. Além disso, a conclusão de espaços como a Praça Jorge Adelino Zanini oferece áreas de lazer e convivência para a juventude local, integrando o esporte à vida cotidiana da cidade.
Responsabilidade Ambiental e a Atuação da Ecosurf
O jornalismo construtivo exige que o sucesso de um evento seja medido também pelo seu impacto ambiental. O Ferju Imbituba Pro 2026 contou com a parceria da ONG Ecosurf para realizar ações de conscientização e preservação durante os dias de competição. A preservação do ecossistema marinho é uma condição sine qua non para a existência do surfe, e Imbituba tem se destacado por integrar ações de limpeza de praia e gestão de resíduos em seus campeonatos.
A educação ambiental promovida no evento visa transformar o surfista e o espectador em agentes de mudança. Ao entender a fragilidade das dunas e a importância da qualidade da água, a comunidade passa a cobrar e a atuar de forma mais ativa na proteção do patrimônio natural. Este compromisso ambiental é também um diferencial competitivo para a cidade, que atrai marcas alinhadas aos valores da sustentabilidade e preservação.
Desafios Urbanos e a Realidade da Gestão
Apesar do sucesso esportivo, a cidade enfrenta desafios que a gestão municipal precisa equilibrar. Problemas no abastecimento de água durante o pico do verão e a necessidade de melhorias contínuas na segurança pública são temas recorrentes que a administração Michell Nunes tem buscado endereçar através de novos investimentos no sistema de captação e em parcerias com as forças policiais. A transparência ao explicar as falhas de infraestrutura, como o aumento do consumo na temporada e o impacto das chuvas, é uma prática de governança que fortalece a confiança entre o poder público e os cidadãos.
Na esfera política, a visibilidade gerada pelos eventos esportivos coloca a gestão sob o escrutínio da Câmara de Vereadores e da população, especialmente com a proximidade de novos ciclos eleitorais. O uso eficiente dos recursos públicos para fomentar o surfe, em harmonia com as demandas básicas de saúde e saneamento, é o grande desafio para que Imbituba continue crescendo de forma sustentável.
Conclusão e Perspectivas Futuras
O Ferju Imbituba Pro 2026 encerrou-se com uma mensagem clara: o surfe profissional é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento regional. A vitória de Lucas Haag e Alexia Monteiro celebrou o talento catarinense, enquanto a organização impecável da ASI e o apoio da Prefeitura de Imbituba demonstraram que a cidade está preparada para desafios ainda maiores, como o QS 6000 da WSL.
As atletas de Garopaba, lideradas pela resiliência de Alexia e pelo estilo de Maya, provaram que o litoral sul é uma unidade técnica coesa, onde a rivalidade nas águas é superada pela cooperação no desenvolvimento do esporte. Para o futuro, espera-se que o modelo do Ferju Pro — que une premiação justa, equidade de gênero, responsabilidade ambiental e excelência técnica — torne-se o padrão para todos os eventos no Brasil. Imbituba, mais do que nunca, reafirma seu lugar como a Haleiwa brasileira, um santuário de ondas e um centro de formação de cidadãos e campeões.


