
Como conciliar o crescimento econômico de uma das capitais do surfe brasileiro com a preservação dos santuários ecológicos que justificaram sua própria fama? Em Garopaba, no litoral sul de Santa Catarina, o silêncio e a ausência de uma resistência comunitária estruturada diante da especulação imobiliária e da pressão climática acendem um alerta sobre o futuro das praias da Silveira, Ferrugem e do Centro neste ano de 2026. A apatia do presente contrasta severamente com o passado de simbiose entre pescadores e os primeiros surfistas, desafiando a sociedade local a refletir sobre o preço da mercantilização da natureza e a necessidade urgente de resgatar os preceitos do Bem Viver antes que o ecossistema costeiro colapse de forma irreversível.
Olhar para o passado de Garopaba é compreender um ecossistema de reciprocidade. Nas décadas de 1970 e 1980, as estradas de chão batido guardavam um cenário onde a pesca artesanal da tainha e o surfe de alma compartilhavam o mesmo horizonte oceânico, unidos pelo respeito aos ciclos da terra e do mar. As dunas, as restingas e o fluxo natural das lagoas não eram barreiras ao desenvolvimento, mas sim os pilares que garantiam a pureza da água e a formação perfeita dos bancos de areia que desenham algumas das ondas mais icônicas do país. Havia uma governança orgânica, ditada pela própria geografia e pela subsistência, muito distante da lógica de exploração predatória que hoje dita o ritmo da ocupação urbana.
No presente, entretanto, o cenário evoca uma desconfortável quietude institucional. Enquanto as encostas da Silveira sofrem com a pressão de loteamentos de alto padrão e a poluição plástica silenciosa sufoca os canais da Ferrugem, observa-se um vácuo de mobilização coletiva por parte de quem usufrui do mar. O esporte, muitas vezes capturado pela estética comercial e pelo greenwashing de marcas que celebram a natureza apenas em peças publicitárias, parece ter se distanciado da sua responsabilidade de salvaguarda ambiental. O ar limpo e a água despoluída — combustíveis inegociáveis do alto rendimento e da saúde coletiva — são tratados como recursos infinitos, ignorando-se o avanço silencioso do esgoto doméstico sem tratamento que contamina os cursos d’água locais. Essa negligência estrutural ameaça diretamente o lençol freático da região, uma vulnerabilidade crítica para uma cidade onde a segurança hídrica e o abastecimento de consumo humano dependem, em sua grande maioria, de poços artesianos espalhados pelos bairros.
Projetar o futuro de Garopaba exige encarar o espelho da crise climática global sem o anestésico do discurso desenvolvimentista vago. Se o ritmo atual de impermeabilização do solo, destruição de restingas e omissão coletiva persistir, as próximas décadas testemunharão a transformação de praias paradisíacas em cartões-postais plastificados e vulneráveis a eventos climáticos extremos, descaracterizando a identidade que atrai turistas e esportistas do mundo inteiro. A sobrevivência da cidade depende da quebra desse estado de letargia, exigindo que a comunidade local, os surfistas e o poder público redescubram o valor dos arranjos não-mercantis e o respeito sagrado ao território.
A grande questão que se impõe para as próximas gerações de Garopaba transcende a economia náutica ou o tamanho dos novos empreendimentos à beira-mar. Conseguirá a comunidade local despertar a tempo de resgatar a essência de seu passado decolonial e moldar um futuro de real resiliência climática, ou assistiremos, de braços cruzados, ao concreto soterrar as últimas memórias da Garopaba que um dia ousou viver em harmonia com o Atlântico?
Fonte: Redação Rádio Estação Garopaba


